Talvez se eu fosse menos dura, menos áspera, menos inflexível...mas eu preciso me manter inteira. Flexibilidade demais pode levar à ruptura, e foi muito difícil construir isso tudo.
Talvez se eu nunca tivesse aberto os olhos e nunca tivesse que sentir essa dor todos os dias quando vejo em cada olhar, no meu olhar, o desespero, a falta de esperança, o desejo, o ódio vermelho e borbulhante...
Talvez se eu nunca tivesse notado o quanto esse estado de coisas gera, dia após dia, mortes, minhas, suas, dor e desespero.
Talvez se eu não tivesse visto o quanto de responsabilidade me imputam, e quão pouco tempo me dispensam, não pra ajudar a carregar o fardo que carrego, eu o escolhi, mas pra ouvir, pra falar, pra olhar. Se não me dissessem tanto "olhe nos olhos" apenas por dizer... sem verdadeiramente olharem, em seus próprios olhos...nos meus próprios olhos.
Se eu não sentisse dia após dia essa lâmina fria, gelada, cortando meus direitos, minhas escolhas, pior, minhas e de todos os que, na maioria das vezes sem saber, construímos esses carros blindados, esses condomínios fechados, essas roupas bem caras, esses cânceres curados, essas suas vidas bem ajeitadas....
Não fosse sentir na pele, com pedaços de papel, o que os 90% que vivem com 25% sentem, não fosse esse choro, esse entendimento sobre a razão que me faz ser hoje o que sou, que me faz ter tantas limitações, que me machuca, que me deixou, inclusive, só, longe dos meus...
Não fosse isso, não sei o que seria.
Mais sociável, talvez? Menos carrancuda. Menos dura. Mais amigos? Mais leve. Mais interessante? Mais bonita?
Talvez tantos não teriam se afastado...outros tantos teriam se aproximado. Será?
Talvez esse leitor estivesse não lendo, mas conversando comigo.
Talvez me respeitasse mais, me entendesse, ou não.
.
.
Não posso mais me desmontar e remontar diferente ao gosto do freguês. Freguês?
(♪ teu cartão não me paga, minha ancestralidade no peito eu não tô te vendendo ♪)...
Essa pós-modernidade desmonta demais...mas tem uma hora que de tanto desmontar e montar, o brinquedo não funciona mais. Saca?
Não fosse o que me construiu, que nos construiu, e as porradas que levei, que levamos.
Diariamente.
Não seria. Não seríamos.
Talvez se nunca tivesse aberto os olhos e enxergado tantos outros, vocês, eles...ainda seria apenas eu. Confesso, prefiro nós. Nós bem feitos...nós difíceis de desmanchar.
Vamos juntos
"Con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero
compañero te desvela
la misma suerte que a mí
prometiste y prometí
encender esta candela
con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero
la muerte mata y escucha
la vida viene después
la unidad que sirve es
la que nos une en la lucha
con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero
la historia tañe sonora
su lección como campana
para gozar el mañana
hay que pelear el ahora
con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero
ya no somos inocentes
ni en la mala ni en la buena
cada cual en su faena
porque en esto no hay suplentes
con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero
algunos cantan victoria
porque el pueblo paga vidas
pero esas muertes queridas
van escribiendo la historia
con tu puedo y con mi quiero
vamos juntos compañero."
Mario Benedetti
Nenhum comentário:
Postar um comentário